Costumo dizer que tive muita sorte na profissão contábil. Escolhi a profissão, já no segundo grau, quando optei por cursar o Técnico em Contabilidade e desde, então, atuei na área. Meu primeiro estágio foi em uma empresa de engenharia elétrica, onde aprendi a base, a essência da contabilidade e tinha certeza de que havia escolhido a melhor profissão do mundo.
Em 1999, passei no vestibular para Ciências Contábeis e resolvi trabalhar em um escritório de contabilidade, para aprender coisas novas, foi um excelente aprendizado, porém, a vida me presenteou com a oportunidade de estagiar no nosso órgão de classe, o Conselho Regional de Contabilidade, no departamento de Fiscalização, onde aprendi muito sobre a regulamentação e fiscalização da nossa profissão, comecei como estagiária, chegando a fiscal e tive um dos meus melhores líderes que carrego como exemplo, extremante ético e perfeccionista, aprendi muito, hoje, o mesmo é presidente do referido órgão. Ressalto que, meu primeiro chefe também é um dos líderes que levo comigo, por sua humanidade e generosidade, cada um que passa por nós, leva um pouco de nós e deixa um pouco de si.
Em 2003, assumi a contabilidade de uma pequena empresa e descobri que não era o que eu queria, deparei-me com uma empresa sem história, sem registros, documentos desorganizados e descobri que, assim como qualquer profissão, na nossa também há profissionais e profissionais.
Em 2004, a perícia me escolheu e eu me apaixonei por ela, uma colega de faculdade me falou sobre a vaga para trabalhar com pericia, a princípio fiquei preocupada, pois não tinha experiência alguma na referida área, mas também não poderia deixar a oportunidade passar, ela bate a nossa porta apenas uma vez e se você não a aproveita, alguém aproveitará, lembre-se disso.
Tive o melhor mestre de Perícia, trabalhei com um dos maiores peritos do estado do Mato Grosso do Sul, Vinicius Alexander Salles Oliva Coutinho, contador e engenheiro civil, tenho muito orgulho em dizer que, o que sei hoje, aprendi com em seu escritório, foram oito anos trabalhando juntos, o que se resumi em uma única palavra “gratidão”.
A maioria das pessoas, talvez por desconhecimento, costumam dizer que para trabalharmos na área de Perícia Contábil é preciso ser amigo do juiz ou sair por aí presenteando os mesmos em troca de uma oportunidade.
Infelizmente, isso pode ser até uma cultura brasileira, a famosa cultura do “QI”, porém para que atue na área da Perícia Contábil, inicialmente, você precisa ter o curso superior em Ciências Contábeis, ter registro no órgão de classe da nossa profissão, ou seja, Conselho Regional de Contabilidade do seu respectivo estado e registrar-se no Tribunal de Justiça vinculado ao cartório para o qual você pretende prestar serviço, conforme previsão legal no Código do Processo Civil, abaixo, parcialmente transcrito:
Seção II
Do Perito
Art. 156. O juiz será assistido por perito quando a prova do fato depender de conhecimento técnico ou científico.
Parágrafo 1o Os peritos serão nomeados entre os profissionais legalmente habilitados e os órgãos técnicos ou científicos devidamente inscritos em cadastro mantido pelo tribunal ao qual o juiz está vinculado.
(grifo meu)
Além disso, se faz necessário que você realize o seu cadastro no “Cadastro Nacional de Peritos Contábeis” (CNPC) do Conselho Federal de Contabilidade (CFC), criado pela Resolução CFC n.º 1.502 , de 19 de fevereiro de 2016, que tem o objetivo de oferecer ao judiciário e à sociedade uma lista de profissionais qualificados que atuam como Peritos Contábeis.
Entretanto, os contadores interessados têm até 31 de dezembro de 2016 para se cadastrar no site do CFC ou nos dos Conselhos Regionais de Contabilidade, posteriormente, para constar no referido cadastro será necessário que você seja aprovado em um exame de qualificação técnica.
Esses são os requisitos legais, contudo é necessário que você tenha conhecimento na área que pretende trabalhar, temos três instâncias mais conhecidas, sendo elas a Justiça do Trabalho, Justiça Federal e Justiça Estadual. Veja, suponha que você entenda tudo de legislação e cálculos trabalhista e tem interesse em ser perito, respeitando as qualificações legais, se você é um conhecedor da área trabalhista, digo que está mais que qualificado quanto ao conhecimento técnico, porém, suponha que a situação é inversa, sua área é tributária e você não domina a área trabalhista, estaria você qualificado com conhecimento técnico cientifico necessário para periciar na Justiça do Trabalho? Acredito que não, é claro que você pode desenvolver tal conhecimento.
Para ser perito é necessário que você domine a área em que pretende atuar, ou seja, seja um expert, bem como, tenha conhecimento mínimo quanto aos trâmites processuais, sendo assim, sugiro que você faça um estágio em escritório de perícia, mesmo que voluntário ou realize um curso específico.
Outrossim, para que você seja um perito é preciso no mínimo, ser uma pessoa de conduta reta; ser competente; ser responsável; ter bom relacionamento; ter postura profissional e pessoal; ser honesto no trato com a situação periciada.
Eu, me apaixonei pela perícia porque não há rotina, por mais que um processo seja parecido com outro, sempre haverá algo diferente. Além disso, você pode fazer seu próprio horário, não precisa trabalhar em um lugar fixo (quando for atuar como perito judicial apenas), há uma excelente remuneração, ao concluir o processo encerrou-se o vínculo com o mesmo, não havendo vínculo com partes e sim com a causa.
Há espaço para novos peritos? Sim, o judiciário carece de peritos habilitados e qualificados para atuar nessa área, busque a qualificação necessária e obterá sucesso.
* Patrícia Pereira Castro
Contadora, Perita Contábil, Consultora Empresarial e Docente é Graduada em Ciências Contábeis; Graduada em Administração Financeira e Controladoria; Pós-graduada em Administração Financeira e Controladoria e Mestranda em Contabilidade Gerencial. É, também, Coordenadora da Região Centro Oeste na Comissão Jovens Lideranças Contábeis do Conselho Federal de Contabilidade – CFC.
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